Olá.
Estou tentando retomar esse blog não pelo blog, mas para ter onde escrever sobre futebol quando der na telha e poder concatenar ideias para além do Twitter, que restringe bastante. Mas não esperem obviedades absolutas ou análises aprofundadas. A ideia é desabafar a respeito de coisas que incomodam no futebol e uma tentativa pseudopretensiosa de trazer outras percepções do campo de jogo. E, claro, alguma reflexão em cima de alguma partida que eu estiver assistindo. Enfim, vamos ver até onde vai isso.
Uma coisa que me incomoda bastante no futebol é o discurso. Não dos jogadores, que em geral não saem da superficialidade, nem das torcidas, que cornetam os seus e xingam raivosamente os outros que também o fazem (sei disso, pois tenho o meu lado exagerado durante os jogos). Mas me irrita esse conversê que roda, roda, roda e não sai do lugar sobre planejamento, mudanças, concepção de jogo, tempo pra treinar, time alternativo (odeio essa expressão), resultados, pressão...
Muita coisa nesse papo faz sentido, mas tem muita gente que usa como muleta para justificar sua incompetência. O Muricy, querido técnico tricampeão brasileiro pelo São Paulo, era pródigo em torcer as palavras e raciocínios para justificar sua incompreensão em jogos de mata-mata (isso na década passada, depois ele ganhou troféus assim e parece ter aprendido) e o mau desempenho de sua equipe em jogos decisivos. Adorava desdenhar da imprensa, dizendo na cara dos atônitos repórteres que eles não entendiam nada e que só quem tá lá dentro pode falar. Engraçado que agora ele é comentarista e pode falar o que quiser que será sempre respeitado, não pelo que fala, mas pelo que fez lá dentro. Mas esse é outra conversa...
Em todo caso, apesar de bastante verdadeiro com os torcedores e de passar a impressão de ser uma pessoa cristalina, em muitos momentos Muricy mudava o discurso de acordo com a maré, para se beneficiar ou evitar pressões - às vezes até sendo grosso com algum repórter que saía do comum e perguntava algo mais "forte". Ele era um hábil mestre nisso.
Dito isso, analiso o atual treinador são-paulino, Dorival Jr. (sim, posso analisar o discurso de quem eu acompanho mais diretamente, até porque, sou são-paulino, se é que alguém que chegou aqui ainda não sabe disso). No começo do ano o papo era planejar, poupar o time e uma chuva de (corretas) críticas sobre o calendário. Mas bastou escalar um reservão mequetrefe e tomar uma piaba em Sorocaba para rever todo o planejamento, meter titulares sem condições de jogo 3 dias depois e não dar um pingo de explicação ao que motivou de fato a mudança de convicção da comissão técnica e do departamento de futebol do clube.
Pressionado pela torcida e especialmente pela imprensa caça-cliques (e também, talvez, pela chancelaria de inúteis que é o conselho de decrépitos do SPFC), o planejamento foi jogado fora e o time entrou no modo #deusnocomando, em uma espiral de jogos em sequência, desempenhos pífios e reclamações crescentes. Ok mudar. Na verdade, mostra uma falta de convicção, mas vá lá. O problema é que o discurso não casa.
A justificativa dada ao fim da alternância de jogadores era que um jogo da sexta rodada fora antecipado, dando, supostamente, mais tempo, para descansar e treinar. Só que é exatamente o contrário, e ninguém questionou. O jogo seria no fim de semana do Carnaval, dandouma semana para descanso entre o 5º e o 6º jogo. Na verdade, atrasou esse intervalo, aumentando o número de jogos em menos tempo, com o intervalo demorando mais alguns dias para acontecer, agora apenas depois do 6º. Mas ficou por isso mesmo.
Ontem, depois da vitória sobre o Botafogo, ele disse que fez quatro alterações na equipe visando poupar os atletas por causa da sequência de jogos. Mais um discurso jogado ao vento completamente descolado da realidade. Petros reassumiu sua titularidade na vaga de Araruna; Anderson foi tirado do jogo pelo médico, pois apresentava dores devido à insanidade de tantos jogos em sequência (e zagueiro o time tem aos montes pra não precisar sobrecarregar ninguém), não foi "poupado"; apenas o contestadíssimo Edimar e o garoto Shaylon (que todos sabem que não será titular) foram opções do técnico, que não poupou coisa alguma. Mas o discurso acaba ganhando tom de verdade, vira matéria e ninguém questiona.
Se fosse para poupar de verdade, tiraria Marcos Guilherme, por exemplo que esteve em campo em TODOS os jogos do time no ano. É seu único ponta, digamos, pronto, e deveria ser preservado. Diego Souza está fora de forma jogando desde o início há quatro jogos. Brenner foi sacado no intervalo ontem, mas fora isso estava jogando muitos minutos. Mas, claro, não podemos descartar a pressão externa que mudou as concepções da comissão muito rapidamente. Isso pode ter influído nas decisões. Outra coisa que não dá pra deixar de mencionar é o quão cedo estamos e que realmente é difícil de cobrar um futebol fantástico.
Mas e o discurso? Como fica? O que dizer para os seus torcedores? Aceitar e não esclarecer, ficar nas platitudes do dia a dia? Por que não falar que o time já está entrando no fio da navalha em fevereiro por conta desse calendário maluco? Por que não arriscar poupar, apanhar das críticas e tentar algo diferente? Se não fosse esse o problema, que fosse outra coisa... mas que use o microfone para deixar as coisas claras.
A comunicação é fundamental para passar confiança. E tudo que a torcida hoje não tem é confiança em seu técnico. Se não fosse o Raí no departamento de futebol é capaz de meia dúzia já ter invadido o CT, diante de tantas incoerências e demonstrações de insegurança. Tem que saber usar o espaço que tem para passar as coisas como elas são. Não adianta torcer a realidade ou simplesmente falar qualquer coisa incongruente. As decisões precisam ser firmes tanto na execução quanto na comunicação, senão não adianta pedir paciência ao torcedor.
Não sei se ficou claro meu discurso (hehe), mas esse é provavelmente um tema que voltarei a tratar em outras ocasiões. Até a próxima!